A crise que se instalou nos Estados Unidos no ano passado tem vitimado muitas pessoas naquele país, primeiro os donos de casas financiadas que não puderam pagar as prestações, depois os donos de hipotecas e atualmente são os agentes financeiros (bancos, corretoras, seguradoras, etc.) e os empregados dessas empresas, visto que muitos deverão perder seus empregos (estima-se que centenas de milhares de pessoas, apenas do mercado financeiro, perderão seus empregos).
Apesar do governo norte-americano já ter injetado centenas de bilhões de dólares na economia, muitas instituições estão em situação financeira muito precária. Até agora, a maior vítima foi o banco e investimentos Broters Lehman, o quarto maior banco norte-americano no seu seguimento, que deixou uma dívida de cerca de US$ 640 bilhões. Esse banco é uma lenda naquele país. Em 1844, um jovem de 23 anos vindo da Alemanha (Henri Lehman) monta um pequeno negócio de vendas que três anos depois tem a companhia do seu irmão Emanuel e em 1950 o terceiro irmão se junta à dupla passando a expandir os negócios a partir de então. Este banco nunca havia apresentado prejuízo, em 2006 apresentou lucro e faturamento jamais alcançados e em 2007 a famosa revista Forbes escolheu como a empresa mais admirada, um ano antes, portanto, de sua falência.
Após essa injeção de centenas de bilhões de dólares na economia desde meados de 2007, quando teve início as conseqüências da crise, o governo nas últimas semanas está sendo obrigado a intervir diretamente na economia, socorrendo várias instituições que estão indo a bancarrota. Essas injeções se dão na forma de compra de títulos de empresas financeiras que estão na porta da falência como a seguradora AIG, a maior do mundo, as empresas hipotecárias Fannie Mãe e Freddie Mac e o banco Bear Stearns. Nessas instituições, o governo norte-americano injetou mais de um trilhão de dólares, cerca de 75% do PIB brasileiro. Além disso, neste momento está em discussão no Congresso daquele país um projeto em que o governo irá comprar os títulos de todas as instituições financeiras com sede em solo norte-americano que venham apresentar dificuldades. Muito provável que esse projeto seja aprovado. Estima-se que ao longo deste ano o governo gaste cerca de 2,6 trilhões de dólares com esse problema originado nas hipotecas e que já é considerada a maior crise depois da crise de 1929.
Para o Brasil o maior problema ocorre na bolsa de valores e na balança de pagamentos. Na bolsa, o início do problema se dá quando os investidores internacionais começam a vender ações para cobrir os seus prejuízos no exterior levando os preços dos papéis para baixo, fazendo com que os outros investidores também façam o mesmo levando a um círculo vicioso que faz com que os preços das ações tenham uma queda muito forte, sem nenhuma relação com os indicadores das empresas objeto dessas ações. Um exemplo é a Petrobrás. Essa empresa no último trimestre apresentou lucro líquido (R$ 8,79 bilhões) 29,0% superior ao primeiro trimestre, recentemente teve aprovada a contratação de dez plataformas e ser atualmente a petrolífera com o maior nível de reservas, mesmo assim os preços das ações dessa empresa ao longo deste ano tem tido uma queda de 28,75%. O mesmo acontece com diversas outra empresas que têm suas ações negociadas na Bolsa de valores, onde seus preços caem, mas sem nenhuma ou quase nenhuma relação com a situação econômica ou financeira da empresa.
No caso do balanço de pagamentos, o seu déficit ocorre em razão, principalmente, do aumento de remessas de renda dos estrangeiros (tanto das bolsas como das participações nas mais diversas empresas brasileiras), diminuição nos preços das principais mercadorias que o Brasil exporta e diminuição da vinda de dinheiro especulativo do exterior.
Realmente, é de se admirar ver o berço da sociedade mais liberal do mundo, no sentido econômico, intervir fortemente na economia, quebrando todos os laços do liberalismo econômico existente naquele país. Essa intervenção, independente de qualquer discussão tola da não intervenção do governo na economia, é de fundamental importância porque o sistema financeiro tem uma relação muito forte como a economia real (onde estão os empregos, salários, vendas, etc., etc.). Na situação em que diversas instituições financeiras muito importantes quebrem, a economia seria extremamente afetada tendo um prejuízo incalculável para todos. Portanto, essa intervenção em curso será de um grande alívio para a economia norte-americana e também para diversas outras economias. Entretanto, a economia norte-americana não escapará de uma recessão, mas infinitamente menor no caso da não intervenção do governo.
Em tempos passados, o Brasil seria muito mais castigado do que atualmente. Hoje, as exportações brasileiras para os Estados Unidos representam menos de 20% do total das nossas exportações. Essa é uma grande vantagem para o Brasil porque poderá compensar a diminuição das exportações para aquele país, exportando para outros países. O nosso sistema financeiro é muito pouco aberto ao exterior e suas regras de financiamento é muito mais rígido do que o existente em outros países. Fazer previsão de quanto o nosso país irá crescer no próximo ano é muito difícil porque muitos fatores são muito importantes e ninguém sabe ao certo qual a variação desses fatores nos próximos trimestres. Por exemplo, qual o nível de recessão nos principais países da Europa, qual o impacto da crise nos principais países da Ásia, etc. Acredito que diversos países da Europa irão crescer menos do que atualmente (alguns deverão entrar em recessão) e alguns país da Ásia crescerão um pouco menos do que este ano. Deste modo, para o Brasil espera-se que o nível de crescimento em 2009 seja mantido igual ao deste ano, ou seja, entre 5,0 e 5,5%, que é uma taxa de crescimento razoável.







