quarta-feira, 21 de março de 2012

A desindustrialização e a eficiência na economia brasileira

As formas de desenvolvimento econômico que afetam as economias e as sociedades se dão como uma revolução que muitas vezes não é percebida, mas muda o modo de vida das pessoas substancialmente. Historicamente, isso ocorreu em muitas nações que hoje são consideradas ricas. As revoluções industriais mudaram o padrão de vida da imensa maioria de quem vivia em países da Europa e em outras nações fora do Velho Continente nas épocas em que ocorreram. Essas mudanças geralmente se dão paulatinamente, mas considerando mesmo o médio prazo pode ser sentida, por exemplo, em termos de mudanças nos tipos de empregos que passam a ser ofertados em determinados setores em escala muito menor do que ocorria em tempos passados.

Fenômenos desse tipo, ocorrem, por exemplo, em país ou região que passa de uma economia tipicamente agrária para uma industrial ou intensiva em capital. Na primeira revolução industrial que ocorreu em vários países europeus, trabalhadores campestres passaram a produzir peças, equipamentos e utensílios industriais. O mesmo ocorreu no Brasil no decorrer do século passado, mais intensivamente a partir dos anos 1950. A economia brasileira era praticamente agrária, existiam poucas indústrias no país, sendo que muitos dos produtos industriais consumidos aqui eram produzidos no exterior. A partir de 1930 é que começou, de fato, a haver uma transformação da economia brasileira em que diminuía a importância da agricultura e aumentava a da indústria.

Tipicamente, em economia que sofre alteração nos processos produtivos a partir do estágio inicial de desenvolvimento, começa aumentando a participação da indústria na economia, diminuindo a da agricultura, mas esta continua crescendo em termos absolutos com a incorporação de novas tecnologias e aumento de produtividade. Ao mesmo tempo em que a indústria aumenta substancialmente a sua produtividade, a ponto de suplantar em muito a da agricultura, surgem novas demandas de serviços sofisticados dos mais diferentes tipos provocadas pelo aumento da renda na indústria e na agricultura que apesar de não apresentar a mesma dinâmica daquela gera renda suficiente para alterar o perfil de demanda dos pertencentes a esse setor da economia. Isso tem continuidade com o país obtendo alta renda tanto em serviços, que passa a ser o setor mais importante da economia, como no setor industrial, que perde importância na economia, e também na agricultura que ainda tem uma dinâmica bastante forte.

Com a recente discussão que se instalou no país a cerca do fenômeno da desindustrialização do Brasil, pode-se indagar: O Brasil está vivendo um fenômeno parecido com o descrito acima? Com as divulgações por órgãos do governo de que a renda do país cresceu significativamente nos últimos anos poderiam nos levar a acreditar que a resposta para a indagação acima seria afirmativa. Entretanto, a verdade é bem diferente. Nos países que experimentaram essa transformação em suas economias nos anos 1970 e 1980, com a indústria perdendo peso na economia, isso ocorreu quando a renda per capita era muito mais alta do que a do Brasil na atualidade. Outro argumento que ajuda a tratar o fenômeno que está ocorrendo agora no Brasil como diferente do descrito no parágrafo anterior é que a produtividade média na indústria brasileira nos últimos anos tem ficado negativa enquanto que nos países ricos ocorreu exatamente o inverso, mesmo com a indústria perdendo peso continuou aumentando a sua produtividade.

Na verdade, a diminuição da participação da indústria brasileira na economia está muito mais relacionada com a falta de competitividade com os produtos estrangeiros do que qualquer outro fenômeno típico de desenvolvimento econômico. Não é segredo que vários setores em várias regiões do país sucumbiram em razão da invasão de produtos estrangeiros, notadamente os provenientes da China. Fatores como taxa de câmbio muito valorizada, taxas de juros muito altas, impostos exagerados, nível de educação muito baixo com qualidade muito aquém da ideal ajudam a explicar esse fenômeno para o processo de desindustrialização que o Brasil está vivendo. Também ajudam explicar esse fenômeno a facilidade com que países entram no Brasil com seus produtos fabricados através de mão de obra extremamente barata e o pouco investimento em tecnologias e inovações visando aumentar a produtividade no setor.

domingo, 18 de março de 2012

Investir em infraestrutura de transporte é condição necessária para o desenvolvimento

A dependência dos meios de transportes para o desenvolvimento e o progresso do país é indiscutível e são altamente relacionados em termos de eficiência e produtividade. A infraestrutura em transporte é uma das pré-condições para o crescimento econômico e os próprios investimentos em transporte (rodoviário, aquático, ferroviário, aéreo, etc.) elevam a capacidade de geração emprego e renda para muitas camadas da população pelo efeito multiplicador da renda que envolve vários setores da economia.  Mas, muito mais importante do que isso, um país com uma boa estrutura de transporte tem custos de produção e escoamento mais baixo, a produtividade dos fatores de produção é mais alta, resultando no aumento da renda e na diminuição dos preços. Assim, todos saem ganhando quando se tem grandes investimentos nos meios de transportes no país, tanto nas rodovias, portos, aeroportos, ferrovias e nas ruas e avenidas das cidades brasileiras.

Por razões de falta de recursos públicos por conta das crises internas e externas interminais vividas no período e pela falta de perspectivas de crescimento na economia brasileira, o período de 1984 a 2005 levaram à falta  de investimentos públicos e privados em transporte no país o que levou a uma crescente diminuição na qualidade e quantidade de serviços de transportes no país. Muitos meios de transportes ficaram sucateados, como o caso do ferroviário, muitas estradas ficaram quase que intransitáveis e as principais cidades do país ficaram com a capacidade de absorção de veículos em suas ruas totalmente esgotada. A partir da estabilização da nossa economia obtida com a redução drástica das taxas de inflação e da estabilização do Real, após passar por várias crises, o país se voltou para a malha de transportes em seus vários modais.

Os investimentos em rodovias tem sido realizados majoritariamente com recursos públicos, muito embora a partir da segunda metade da década de 1990 vários trechos passaram para a responsabilidade do setor privado por meio de concessões. Existe a estimativa de que o setor privado esteja interessado em 15% da malha rodoviária do país, somando as áreas já concedidas e as que estão programadas para serem leiloadas. Os 85% restantes da malha rodoviária do país deverão ser de responsabilidade direta do setor público, seja da União ou dos Estados. Uma parte dos que não entrarão nas concessões poderão ser entregue ao setor privado por meio de contratação de parcerias público-privado, mas não se tem a estimativa do quantitativo que poderão entrar nesse programa.

Nos últimos anos, os investimentos no setor de transporte aumentaram significativamente. No período de 2003 a 2010, os investimentos no setor aumentaram 200% em termos reais, passando de R$ 7,0 bilhões para R$ 23,4 bilhões. Sendo que 60% desse valor investido no último ano foram destinados ao modal rodoviário que precisa de muito mais investimento para que possa proporcionar trafegabilidade adequada. Existem estimativas de que são necessários investimentos anuais nas rodovias brasileiras de cerca de 2,0% do PIB brasileiro, atualmente estão em 0,42%. Esses investimentos estão sendo feitos pelo governo e pelas empresas concessionárias. No modal aeroviário, apesar do forte crescimento da demanda oriunda, principalmente do aumento da renda média dos brasileiros, os investimentos ainda são bastante baixos e de origem majoritariamente do setor público. Nos últimos meses teve-se a concessão de três aeroportos, o que nos leva a acreditar que os investimentos nesse modal apresentem melhora significativa nos próximos anos.

Quanto ao modal ferroviário, os investimentos em manutenção e modernização tem ficado a cargo quase que integralmente do setor privado enquanto que os de expansão tem ficado sob a responsabilidade do governo. O investimento anual do setor público tem girado em torno de R$ 2,9 bilhões enquanto o governo investe, em média, R$ 2,5 bilhões anuais. Os investimentos no modal hidroviário tem ficado em torno de R$ 2,8 bilhões por ano, tendo as participações do setor público e do setor privado em partes quase iguais. Aqui entram algumas empresas estatais com investimentos substanciais.

Os dirigentes brasileiros, sejam eles do governo federal, dos governos dos estados ou das prefeituras, devem ter em mente que a infraestrutura de locomoção de pessoas, bens e produtos deve ser a mais adequada possível. Para que se produza e se viva com eficiência e bem estar é necessário que o custo em termos de tempo, dinheiro e conforto nos deslocamentos seja o menor possível. É impossível imaginar que o país possa ter uma grande produtividade sem uma malha rodoviária, ferroviária, aeroportuária, hidroviária adequada. Além disso, o tráfego nas cidades deve ser mais rápido, mais seguro e menos estressante do que se tem atualmente. Para tudo isso, são necessários investimentos pesados tanto do setor público como do setor privado. Os responsáveis devem se habilitar a cumprir com as suas responsabilidades.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A Previdência Social no Brasil gera déficit ou superávit?

Os números da Previdência Social tem sido objeto de várias controversas em que por um lado se afirma que os resultados financeiros são sistematicamente negativos, levando a déficits contínuos e crescentes.  Por outro lado, existem aqueles que afirmam que os resultados somente são negativos em razão da inclusão de beneficiários que nunca contribuíram ou contribuíram muito pouco, como o caso dos trabalhadores rurais. Na visão dessas pessoas, considerando somente os beneficiários da cidade, da zona urbana, tem-se um superávit bastante razoável que poderia assegurar com bastante margem de segurança que o sistema seria atuarialmente equilibrado (ou até mesmo com bastante sobra) sem haver a necessidade de realização de reformas no sistema previdenciário, tais como o aumento da idade mínima para se aposentar, por exemplo.

Segundo o Ministério da Previdência Social, em 2011 a arrecadação líquida do sistema foi de R$ 251,202 bilhões, sendo que desse total, R$ 245,725 foram arrecadados da área urbana, R$ 5,476 bilhões foram arrecadados do setor rural e R$ 1,7 bilhão foi arrecado por meio do Compromisso Previdenciário do governo (Comprev – Compensação Previdenciária entre o Regime Geral de Previdência Social e os vários regimes próprios de servidores públicos federais, estaduais e municipais).  Quanto aos pagamentos aos beneficiários, os da área urbana foram de R$ 223,50 bilhões, os da área rural foram de R$ 62,622 bilhões e os do Comprev de R$ 1,417 bilhão. Assim, considerando os beneficiários do Comprev com sendo da área urbana, tem-se a seguinte configuração quanto aos resultados: os pertencentes à área urbana tiveram um superávit de R$ 20,805 bilhões enquanto que os da área rural tiveram um déficit de R$ 57,346 bilhões. Com esses resultados, a Previdência do setor privado ficou com um déficit de R$ 36,541 bilhões em 2011.  Todos esses números são referentes a valores de dezembro de 2011, atualizados mês a mês pelo INPC.

Evidentemente que os números que compõem os resultados da Previdência Social não são somente os apresentados no parágrafo anterior.  Os números de receita mencionados acima referem-se à arrecadação feita junto aos contribuintes, sejam eles pessoa física ou jurídica.  Também fazem parte da receita da Previdência: R$ 145,22 milhões de rendimentos financeiros, R$ 307,86 milhões de outros recebimentos próprios, menos R$ 479,14 milhões de antecipação de receita junto ao Tesouro Nacional, R$ 76,036 bilhões de transferências da União. Ao somarmos esses valores com os que foram arrecadados tem-se um total recebimento de R$ 347,416 bilhões no ano de 2011. Os números apresentados neste e no próximo parágrafo são em valores correntes, sem nenhuma correção quanto à variação de preços ocorrida no decorrer do ano de 2011.

Nos gastos da Previdência também estão incluídos os pagamentos não previdenciários R$ 24,905 bilhões como assistência social (LOAS), R$ 975 milhões referente a EPU TN (Encargos Previdenciários da União – pagamentos de aposentadorias e pensões de servidores da União por meio do Pasep), R$ 8,92 bilhões com pessoal, R$ 2,397 bilhões com custeio, R$ 24,998 bilhões em transferências. Isso resultou em um saldo operacional de R$ 3,782 bilhões que somados aos R$ 4,691 bilhões do saldo inicial, tem-se um saldo final de R$ 8,473 bilhões. Esse resultado, claro, como visto acima foi em razão de transferências e outros ganhos além da arrecadação.

Com tudo o que foi visto acima, a polêmica quanto aos resultados financeiros da Previdência Social persiste. Entretanto, agora sabemos onde estão os pontos da discórdia e temos condições de avaliar e tomar a nossa própria decisão no sentido de definirmos quem está com a razão: se os que acham a Previdência deve urgentemente ser alterada para melhorar os resultados financeiros ou se o que deve ser feito é apenas uma readequação contábil na conta do sistema e levar a União a ser a responsável por cobrir dos gastos com quem não contribuiu.

A verdade é que a Previdência Social não é composta somente de participantes residentes nas cidades e que contribuíram com o sistema, mas tem uma abrangência muito maior.  Existe também a inclusão de outros entes que praticamente não contribuíram (como os trabalhadores rurais) e os que não contribuíram (os pertencentes à LOAS e as transferências a entidades). Em 2011, somente os valores pagos à LOAS e as transferências a entidades (SESI, SENAI, SESC, etc.) somaram R$ 49,90 bilhões. Esse valor mais os relacionados ao pagamento de pessoal e custeio deveriam ser contabilizados em uma conta diferente à que constam os valores previdenciários e publicados  separadamente em outro documento para diminuir as eventuais dúvidas à saúde financeira do Sistema de Previdência Social no Brasil. Quanto á questão relacionada aos beneficiários da zona urbana e da zona rural, o sistema deve ser capaz de mostrar mais claramente essa distinção e procurar recursos que possam cobrir as diferenças causadas pela deficiência natural do poder de contribuição dos trabalhadores da zona rural.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Transferências públicas de assistência e previdência social: A revelação de seus custos

Todas as pessoas necessitam de recursos para sobreviverem e poderem atender as suas necessidades básicas no cotidiano. Esses recursos podem vir dos frutos do trabalho e do capital (lucros, salários, renda, etc.) ou por meio de ajuda do governo ou de entidade filantrópicas. No caso do governo, existe a contribuição direta ou indireta do indivíduo, tal como ocorre na maioria das aposentadorias, cuja maior parte dos recursos é fruto de contribuição dos próprios beneficiados que é realizada de forma compulsória com determinado percentual de seus rendimentos. Mas, de qualquer forma, seja pessoa com bom salário, com baixo salário ou sem rendimento algum, quando esteja na situação de não poder obter o próprio rendimento para se sustentar, o governo tem servido de suporte para que as pessoas tenham um padrão de vida com o mínimo possível de problemas do ponto de vista de atendimento de suas necessidades.

Em recente trabalho do IPEA, foram apresentados os gastos do governo com as Transferências Públicas de Assistência e Previdência e Subsídios (TAPS) correspondentes ao período de 2002 a 2011. Os gastos com as TAPS em 2011, por exemplo, foram de 14,86% do PIB, nível que vem se mantendo nos últimos anos. No ano passado, os maiores gastos referentes às TAPS foram os relacionados ao Regime Geral da Previdência Social (RGPS) com 6,05% do PIB, em seguida vem os gastos previdenciários com os servidores públicos estaduais e municipais, 2,34% do PIB; os gastos com os aposentados e pensionistas do funcionalismo público federal, 1,91% do PIB; os gastos com o FGTS, 1,39% do PIB; gastos com o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), 0,82% do PIB; os benefícios assistenciais da Lei Orgânica da Previdência Social (LOAS), 0,60% do PIB; Bolsa Família, 0,44% do PIB; recursos transferidos para ONGs, 0,52% do PIB e as demais transferências, 0,78% do PIB.

Dessa forma, observa-se que cerca de 15% do que o governo arrecada volta para a população como forma de ajuda assistencial, em que milhões de pessoas são atendidas pelo poder público em momentos em que precisam. Os 25,176 milhões de pessoas que recebem suas aposentadorias pelo RGPS, os 3,863 milhões que recebem benefícios por meio da LOAS, os 955 mil de funcionários públicos federais que recebem pelo Regime Próprio de Previdência e os milhões de aposentados e pensionistas oriundos das prefeituras e dos governos estaduais recebem seus benefícios regularmente e com absoluta certeza de que todos os meses encontrará no banco o valor esperado.

A verdade é que 63,45% dos beneficiários do RGPS recebem até um salário mínimo e quase a totalidade dos que recebem pela LOAS são beneficiados pelo piso salarial vigente no país, mas os beneficiários do governo federal, os funcionários públicos federais inativos, tem um rendimento médio de R$ 5.878,5. Essa é uma média, visto que existem muitos beneficiários que recebem dezenas de milhares de reais por mês. Os perfis dos benefícios pagos aos funcionalismos municipais e estaduais inativos não estão disponíveis, mas pode-se inferir que tenham um padrão inferior ao dos servidores federais, mas superior ao do RGPS.

O FAT, que serve para o pagamento do Seguro-Desemprego e para o abono salarial, tem servido também para a realização de empréstimos notadamente visando a geração de emprego, além de programas que ajudam a formação do trabalhador com cursos de qualificação ou requalificação. O FGTS é o mais conhecido dos brasileiros, cujo patrimônio vem de oito por cento do salário do empregado que o empregador deposita em uma conta específica na Caixa Econômica Federal sem descontar esse valor dos rendimentos dos empregados. Os recursos formados por todos os depósitos são geridos por um conselho que determina como os recursos devem ser investidos visando sempre atender o social e a geração de um rendimento mínimo que capacite o fundo suportar os saques que são realizados de forma constante. Por exemplo, em 2011 foram sacados do fundo R$ 49,890 bilhões, sendo que desse valor, R$ 30,86 bilhões para demissão sem justa causa, R$ 6,7 bilhões para aposentados, R$ 6,97 bilhões para moradias, R$ 802 milhões por inatividade da conta, R$ 407 milhões por doenças graves e R$ 4,14 bilhões por outros motivos.

Os tipos de gastos descritos acima são de importância fundamental e constituem a contribuição direta do poder público para o cidadão poder viver com dignidade em determinados momentos da vida. Não englobam todos os gastos sociais porque não estão incluídos os gastos com saúde e educação, entre outros, mas são muito importantes nas vidas dos trabalhadores e famílias brasileiros. O importante é que esses recursos sejam geridos com a máxima competência, ética e respeito aos beneficiários. Esperamos que episódios de corrupção na previdência ou até mesmo no FGTS não ocorram mais e que os destinatários desses recursos por direito os receba como sempre aconteceu.

sábado, 10 de março de 2012

O que os trabalhadores brasileiros sentem do ambiente de trabalho

A grande maioria dos trabalhadores brasileiros passa mais tempo no trabalho e no trajeto residência-trabalho-residência do que com o convívio com os familiares. Assim, as aflições, os bons e os maus momentos no ambiente de trabalho, a liberdade ao exercer as atividades laborais, o nível de importância que o trabalhador sente que tem para a empresa, enfim, a percepção que o trabalhador sente em relação ao seu trabalho é muito importante para definir o nível de alegria, felicidade, produtividade e até mesmo a saúde dessas pessoas. A economia é movida pelo trabalho e o trabalho depende fundamentalmente das pessoas que exercem atividades de modo individual ou em organizações que congregam mais de um individuo, desde aquelas que possuem dois colaboradores até aquelas que possuem dezenas de milhares de empregados.  Todos são importantes para o país, para a economia e para a sociedade.

Para saber a percepção dos trabalhadores brasileiros sobre o seu ambiente de trabalho, o IPEA realizou uma pesquisa na qual foram entrevistadas 3.709 pessoas em todo o país, sendo 52,4% homens e 47,6% mulheres, que exerciam alguma atividade remunerada ou estavam à procura de alguma função no mercado de trabalho. Essa pesquisa tem uma margem de erro de 2,5%, ou seja, os resultados verdadeiros podem variar 2,5% para baixo ou para cima dos resultados apresentados na pesquisa. Alguns dos resultados extraídos dessa pesquisa estão descritos nos parágrafos que seguem.

É interessante obervar que 41% das pessoas entrevistadas disseram que escolheram a atividade atual por interesses profissionais, 26,6% disseram que dependem dela para sobreviver porque dificilmente encontrariam outro emprego no mesmo nível, 18,4% disseram exercem uma atividade transitória até que consiga algo melhor, 5,9% disseram trabalham em uma área que é tradição da família, 4,7% disseram que a atividade que atualmente realizam o fazem principalmente por engajamento político e 3,1% disseram que a atividade atual é apenas para passar o tempo livre.

Quanto à exigência de exercer atividade em grupo, em equipe, 56,6% das pessoas que trabalham no setor formal da economia responderam que existe exigência muito grande, 24,2% que existe baixa exigência e 17,2% que existe média exigência. Quando envolvem todas as áreas tem-se a seguinte configuração: 46,8% de alta exigência, 32,7% de baixa exigência e 18,5% de exigência média. No que se refere à exigência de se realizar atividades em grande velocidade, a pesquisa apresentou os seguintes resultados: 49,8% dos que trabalham o setor formal disseram que há grande exigência, 27,1% que existe baixa exigência e 20,9% disseram que a exigência é baixa para que trabalhem a um ritmo acelerado. Na economia como um todo, esses percentuais são de 47,2%, 28,7% e 21,8%, respectivamente.

Quanto à necessidade de se comunicar bem, 62,6% das pessoas que trabalham no setor formal afirmaram que existia uma exigência muito alta em suas atividades e a média em que estão incluídos todos os setores foi 58,8% dos que afirmaram que havia grande exigência para se comunicar bem. Nessa pesquisa, 58,8% dos trabalhadores do setor formal afirmaram que faziam atividades que antes eram exercidas por mais de uma pessoa, ou seja, estavam trabalhando por mais de uma pessoa. Outro ponto interessante é quanto à ocorrência de problema de saúde causada pelo excesso de trabalho. Na média de todos os setores, 17,3% afirmaram que já tiveram problema de saúde por causa do excesso de trabalho.

O panorama geral do trabalhador brasileiro é que ele é muito exigido e tem que cumprir tarefas que antes eram realizadas por outras pessoas. A competitividade no mercado de trabalho exige pessoas cada vez mais comprometidas com a organização, que, de fato, vistam a camisa da empresa e apresentem os resultados esperados a cada período. Ao mesmo tempo, a imensa maioria das empresas proporciona liberdade para seus empregados tomarem um cafezinho, irem ao banheiro ou conversar um pouco com o colega ao lado. Coisas que há algumas décadas eram restringidas até mesmo com certa intensidade. Com o surgimento de novas tecnologias, aumento da capacidade intelectual do trabalhador e, consequente, aumento da produtividade levam as pessoas a terem mais liberdade em seus locais de trabalho, mas aumenta a exigência por resultados.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A economia brasileira de 2011 em números

As atividades na economia brasileira em 2011 não foram como se desejava, mas em alguns ramos os resultados foram bastante satisfatórios. Entretanto, em outros foram aquém do que se poderia dizer que fosse adequado. Os resultados do PIB são sempre esperados para se saber em que áreas da economia se saíram melhor e quais as que foram as perdedoras ou andaram para trás.  Na verdade, vários órgãos públicos e privados fazem estimativas do crescimento da economia quase que constantemente, mas somente quando o IBGE divulga os resultados é que podemos aferir que a economia cresceu determinado percentual no período de um ano, de um trimestre, etc., conforme o caso.

Recentemente o IBGE divulgou os números da economia brasileira no que se refere o ano de 2011. O percentual de aumento, 2,7%, era mais ou menos o que se esperava, dados os vários problemas que várias economias estão enfrentando, notadamente boa parte dos países europeus, o que afeta direta ou indiretamente a nossa economia. Essa taxa de crescimento não foi uniforme entre os principais setores da economia. A agropecuária cresceu 3,9%, a indústria teve um crescimento de 1,6% e os serviços cresceram igual à média, 2,7%.  A somatória das taxas de crescimento desses três setores (que constitui o Valor Adicionado a preços básicos) ponderado pela importância de cada um deles a economia foi de 2,5%. Adicionando a taxa de crescimento dos impostos sobre os produtos, que foi de 4,3%, também pelo peso que os impostos sobre produtos tem na economia, obteve-se os 2,7%.

Da análise feita no parágrafo acima entende-se que o PIB pelo lado do produto é composto de agropecuária, indústria e serviços. Além desses tem os impostos. Assim, é interessante conhecer qual a importância de cada um desses setores tem para a economia. A agropecuária teve um produto de R$ 192,65 bilhões, 4,65% do PIB; a indústria teve um produto de R$ 972,16 bilhões, 23,46% do PIB; os serviços produziram R$ 2,366 trilhões, 57,11% do PIB e os impostos sobre o produto foram R$ 612,14 bilhões, 14,77% do PIB. Se desconsiderássemos os impostos, os percentuais de participação dos três setores no valor adicionado da economia seriam: agropecuária, 5,5%; indústria, 27,5% e serviços, 67,0%. Mas, de qualquer forma, o mais apropriado é considerar os impostos sobre o produto.

Considerando a economia pelo lado da demanda, tem-se a seguinte configuração: despesas de consumo das famílias: R$ 2,499 trilhões, 60,33% do PIB; consumo do governo: R$ 856,647 bilhões, 20,68%; formação bruta de capital (investimento): R$ 798,72 bilhões, 19,28% do PIB, exportações menos importações de bens e serviços: menos R$ 30,38 bilhões, menos 0,73% do PIB (ou seja, tivemos um déficit de R$ 30,38 bilhões na nossa balança de bens e serviços) e as variações de estoque foram de R$ 18,54 bilhões, 0,45% do PIB. É interessante observar que 52,4% dos investimentos foram em máquinas e equipamento, 41,4% em construção e 6,2% em outros tipos de investimento.

O consumo das famílias teve um aumento de 4,1%, sendo o 8º ano consecutivo que as famílias consomem mais do que consumiram no ano anterior. O grande vilão da nossa economia foi o setor externo, do crescimento de 2,7%, a demanda interna contribuiu com 3,4% e o setor externo com menos 0,7%. Algo que temos que pensar muito seriamente é aumentar a nossa taxa de poupança para que possamos incrementar os investimentos que andar a níveis muito baixos, o que inviabiliza qualquer tentativa de crescimento econômico a taxas maiores por período razoável de tempo sem incorrer em inflação ou outros desequilíbrios. Aliás, desde o ano 2000 que a taxa de investimentos anual oscila entre 15,3% a 19,5% do PIB, é muito pouco. Ao mesmo tempo, nesse mesmo período, a poupança bruta oscilou entre 13,5% a 18,6% do PIB. Em 2011, a taxa de poupança foi de 17,2% do PIB e a taxa de investimento, conforme visto acima, foi de 19,3% do PIB.